sábado, 19 setembro 2026
UMUARAMA/PR

Júri condena ex-tenente a 15 anos de prisão por morte de comandante no Paraná

Júri condena ex-tenente a 15 anos de prisão por morte de comandante no Paraná

Em Curitiba, nesta quinta-feira (24), o Tribunal do Júri condenou a 15 anos de prisão em regime fechado um ex-tenente da Polícia Militar apontado como responsável pela morte do major Pedro Plocharski, ocorrida em janeiro de 2005. Na época do crime, a vítima exercia interinamente o cargo de comandante do 13º Batalhão da PM, situado no bairro Capão Raso, e foi morta a tiros de metralhadora, em uma tocaia, ao sair do trabalho.

O caso teve grande repercussão até porque, na época, o major investigava crimes praticados por policiais. Dois homens foram identificados como autores do homicídio – o ex-tenente, que fez os disparos, e outro ex-PM, que dirigia o veículo que abordou o carro do major.

O primeiro já estava afastado da corporação e cumpria pena em regime semiaberto na Colônia Penal Agrícola, por participação no incêndio da Promotoria de Investigação Criminal (PIC), e o segundo respondia a várias ações penais (acabou morto em janeiro de 2012 durante uma troca de tiros com a Polícia Civil).

Confissão

No Júri, o Ministério Público do Paraná atuou na acusação. O crime teve como reflexo a deflagração, ainda em 2005, da Operação Tentáculos, investigação da Polícia Federal e da Secretaria de Estado da Segurança Pública do Paraná, que culminou na desarticulação de um grupo de extermínio comandado por policiais e na elucidação da morte do major. Durante o julgamento, o réu negou o crime, mas acabou confessando que efetivamente participou do incêndio na PIC – o que negava, até então.

O CRIME

A força-tarefa formada entre a Secretaria da Segurança Pública do Paraná e a Polícia Federal desmantelou, na região de Curitiba, uma das maiores quadrilhas de extermínio do país, formada por policiais militares, advogados e assaltantes. Esta operação foi provocada pelo pedido feito ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, qual na ocasião solicitou a cooperação da Polícia Federal. Realizamos uma verdadeira limpeza na Polícia Militar”, disse o governador Roberto Requião, ressaltando a importância da parceria, na abertura da entrevista coletiva que divulgou os primeiros resultados da operação.

A quadrilha era apontada como responsável pela execução do major Pedro Plocharski, subcomandante do 13.º Batalhão da PM, na capital, e ainda por pelo menos 30 assassinatos  no ano passado anterior. De acordo com as investigações, a mesma quadrilha era ligada ao tráfico internacional de drogas e armas, roubo a estabelecimentos comerciais e transporte de valores, roubo e receptação de veículos e organização de milícias armadas contra sem-terra. A descoberta dos assassinos do major era uma das prioridades determinadas pelo governador à Secretaria da Segurança Pública.

Os primeiros resultados foram apresentados em entrevista coletiva no Palácio Iguaçu, durante a tarde, com a participação do secretário da Segurança Pública, na época, Luiz Fernando Delazari, do subcomandante-geral da Polícia Militar, tenente-coronel José Paulo Betes, e do superintendente da Polícia Federal no Paraná, delegado Jaber Makul Saad. “A limpeza que fizemos na PM com esta operação é para a maioria absoluta dos policiais, que é honesta, trabalha com dedicação”, disse Delazari.

A grande ação policial batizada como Operação Tentáculos foi deflagrada e para cumpriu 29 mandados de prisão preventiva e outros 85 de busca e apreensão. Entre eles, seis PM´s, dois ex-policiais militares e três advogados foram presos. Dois escritórios de advocacia, 25 residências de policiais, salas do 13.º BPM em Curitiba e celas da Colônia Penal Agrícola e da Casa de Custódia de Piraquara, na região metropolitana, foram vasculhadas pelos policiais da força-tarefa. Um quarteirão inteiro onde funcionava um desmanche de veículos também foi vistoriado pelos policiais. Na operação, 24 pessoas haviam sido presas em cumprimento a mandados judiciais e outras cinco em flagrante. Duas motos, R$ 50 mil em dinheiro e outros 15 carros, entre eles o Golf verde usado para a execução de Plocharski, foram apreendidos.

Mais de 400 policiais civis, militares e federais, com 90 viaturas, cumpriram os mais de cem mandados de prisão e de busca e apreensão simultaneamente em Curitiba e região. “Esta é a maior operação policial da história do Paraná. Foram meses de investigação profunda que terminou com a prisão de policiais que são verdadeiros criminosos. Esta é a grande prova de que vamos limpar a polícia do Paraná e colocar atrás das grades pessoas que usam da farda, do poder da profissão, para cometer crimes bárbaros”, disse o secretário da Segurança Pública do Paraná, Luiz Fernando Delazari.

De acordo com o secretário, a quadrilha começou a ser desmantelada a partir das investigações que apuravam o assassinato do major Plocharski,. Testemunhas da execução e pessoas próximas ao major levaram a polícia a investigar a possível existência de uma organização criminosa formada por policiais militares lotados no 13.º Batalhão. “A polícia descobriu que o próprio major já havia detectado a existência desta quadrilha e tentava desmantelá-la”, disse.

Delazari ainda informou que as investigações continuam. Segundo ele, há outros tipos de crimes sendo apurados. “Tem muita gente ainda envolvida e que será investigada e presa. Esta operação ainda vai se desdobrar em uma outra”, disse.

Execução

O major Pedro Plocharski foi morto no dia 28 de janeiro de 2011,logo depois de deixar o quartel do 13.º BPM rumo a sua casa. Plocharski que dirigia seu carro modelo Fusca, no bairro Pinheirinho, foi fechado por um Golf, de cor verde, com três ocupantes que dispararam tiros de escopeta e de uma metralhadora 9 milímetros. O policial morreu na hora.

De acordo com o delegado Luiz Alberto Cartaxo Moura, chefe da Delegacia de Homicídios, em Curitiba, o assassinato começou a ser desvendado quando testemunhas do crime reconheceram, através de fotografias, dois ex-policiais militares como autores do assassinato. Moacir Possamai Girardi, ex-soldado, excluído da PM por problemas de disciplina, foi apontado como motorista do Golf e Alberto da Silva Santos, ex-aspirante a oficial da PM, condenado por ser o responsável pelo incêndio da Procuradoria de Investigações Criminais, foi apontado pelas testemunhas como autor dos disparos que mataram o major.

Além disso, durante os depoimentos e investigações, a polícia descobriu que o major Plocharski já desconfiava de um grupo de policiais militares que estariam ligados ao tráfico de drogas e assaltos na região. “A desconfiança do major lhe rendeu inimizades e lhe custou a vida”, disse o delegado. Segundo ele, a “gota d´água” para a quadrilha foi a morte de um criminoso, logo depois de um tiroteio envolvendo PM´s e traficantes.

Desconfiado que o traficante havia sido executado pelos policiais, o major teria dado ordens para apreender as armas usadas no tiroteio e também para que fosse instaurado um procedimento administrativo para investigar o caso. “Para proteger toda a organização criminosa de qualquer tipo de ameaça, o grupo era capaz de cometer crimes bárbaros. O major Plocharski se tornou uma ameaça e foi executado sumariamente”, explicou Cartaxo.

Envolvidos

De acordo com as investigações, pelo menos três policiais militares que trabalham no 13.º BPM participaram ativamente da execução de Plocharski. Os soldados Sandro Delgobo e Ari Camargo teriam dado cobertura aos assassinos do major, no dia do crime. Já o soldado Arilson de Lima da Cunha é apontado como o informante do cotidiano de Plocharski para a quadrilha. Cunha teria telefonado da guarita do quartel do 13.º BPM, para avisar os criminosos sobre o horário de saída do major.

As investigações indicaram a participação ativa dos três PM´s em um grupo de extermínio que trabalha para o tráfico de drogas, roubo e receptação de veículos e roubo a estabelecimentos comerciais na região do 13.º BPM. O soldado Delgobo chefiaria o grupo do qual fazem parte o ex-tenente Aberto Silva, que atirou contra o major, e o ex-PM Moacir Girardi, que dirigiu o carro Golf, usado para a execução de Plocharski. Além deles, estão ligados à quadrilha policiais do serviço reservado da polícia militar, vários assaltantes e traficantes de drogas. “Ele servia como um elo de ligação entre as quadrilhas criminosas de tráfico de drogas, de roubo de veículos, roubo de estabelecimentos comerciais e o grupo de extermínio”, disse o delegado Cartaxo.

Operação Março Branco antecipou a Tentáculos

O tenente-coronel Valdir Copetti Neves, preso na operação Março Branco, acusado de comandar uma milícia armada no campo contra grupos sem-terra, também faz parte das investigações da Operação Tentáculos. De acordo com a Polícia Federal, a operação Março Branco foi uma espécie de antecipação da Tentáculos.

As investigações, além de apontar Neves pelos crimes que já foram denunciados pelo Ministério Público Federal, indicam sua ligação com a empresa clandestina de segurança “Sigilo”. Segundo o delegado Luiz Alberto Cartaxo Moura, policiais militares ligados a assaltantes planejavam e executavam roubos a comerciantes da região do 13º BPM (Sul da cidade) em Curitiba e depois ofereciam o serviço clandestino de segurança. “Eles agiam como as máfias italianas ou chinesas assaltando comerciantes e obrigando-os a contratar o serviço de segurança. Eles mesmos roubavam e faziam a segurança. Um absurdo”, disse o delegado.

Além de Neves, as investigações indicam o envolvimento dos soldados PM Sandro Delgobo e Ari Camargo na empresa clandestina. Um policial civil morto logo depois do assassinato do major Plocharski, conhecido como Nego Cido, também fazia parte da empresa. O coronel da reserva e advogado criminal Lúcio Mattos Junior, também preso pela operação, é acusado de receptação de jóias e produtos roubados pela quadrilha. Mattos Júnior é também o advogado do ex-tenente da PM Alberto Silva, condenado pelo incêndio na PIC e apontado como o executor do major Plocharski.



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