Criminosos armados invadiram o terminal de cargas do Aeroporto Internacional de Viracopos, trocaram tiros com seguranças e assaltaram a transportadora de valores Brinks, na manhã desta quinta-feira, 17, em Campinas, no interior de São Paulo. Três assaltantes foram mortos, um deles por um sniper, ao invadirem casas e fazerem reféns no bairro Campina Verde, periferia da cidade. Dos três reféns, entre eles uma criança, só uma se feriu levemente. Um major da Polícia Militar foi atingido, mas sem gravidade.
Imagens de câmeras mostraram que o carro-forte, carregado com o dinheiro, já adentrava a pista para se dirigir ao avião que receberia o montante. O dinheiro, em reais, seguiria para um banco na Inglaterra. Os criminosos usaram uma metralhadora ponto 50, usada como arma antiaérea, para obrigar o carro-forte a parar. Esta arma, além de um fuzil, foi encontrada na caminhoneta usada pelos ladrões, barrada durante a fuga em tiroteio com a polícia.
Conforme a administração do aeroporto, os bandidos usaram um veículo com as cores e características da Aeronáutica. Mesmo assim, a caminhonete foi parada, mas acelerou e rompeu o portão de acesso. Mesmo com os pneus estourados pela grade de segurança, os criminosos seguiram para o terminal e atiraram contra os seguranças. Dois seguranças foram baleados e levados para hospitais de Campinas.

Durante a ação, a quadrilha – que a Polícia Militar estima ter até 20 integrantes – ateou fogo em três caminhões na Rodovia Santos Dumont (SP-79), principal acesso ao aeroporto. As duas pistas foram bloqueadas. O tráfego era intenso e houve pânico entre os usuários da rodovia. A Brinks informou ainda que a maior parte do dinheiro levada pelos assaltantes foi recuperada pela polícia. O valor não foi informado.
Os criminosos foram surpreendidos por guardas municipais após roubarem um caminhão de lixo na fuga, atiraram para afastar a GM, mas foram seguidos por policiais militares, até tentarem escapar pelas casas do bairro na região do aeroporto. Uma mulher e um bebê de 10 meses também foram mantidos reféns pelo bandido.
A menina foi liberada no início da tarde, sem ferimentos. Em seguida, um dos assaltantes foi morto por um sniper da polícia paulista. A mãe foi atingida por disparo na região lombar. Ela tem 37 anos e está internada em estado estável no hospital da Pontifícia Universidade Católica (PUC)-Campinas. Seu nome não foi informado. Ambas ficaram mantidas reféns por cerca de duas horas.
Ação policial
Segundo o coronel Luiz Augusto Pacheco Ambar, do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), da Polícia Militar, o assaltante baleado pelo sniper negociava a rendição quando aumentou a agressividade, com a arma voltada para a cabeça da mãe da criança. O atirador da polícia, postado do outro lado da rua, teria então atirado para preservar as vítimas, ainda conforme o coronel. “Ele aumentou a agressividade de forma descontrolada”, disse.
Equipes da PM entraram em seguida do disparo e efetuaram mais tiros. Não foi informado com quantos tiros o bandido foi atingido, apenas que o do sniper foi direcionado ao seu rosto. O criminoso, identificado por sua advogada como Luciano Santiago, seria empresário e vivia na capital paulista. Ele negociou a rendição e a PM chamou seus advogados, antes da situação que terminou com a ação do sniper.
A advogada dele, Alessandra Girardi, disse estar revoltada com o desfecho, pois seu cliente disse ao telefone que estava disposto a se entregar. “Eu estava em Guarulhos e o major ao telefone, a todo momento, entrava em contato. Ele ia se entregar, cheguei escoltada aqui. Estava tudo certo. E, quando cheguei, já estava morto. Não negamos o crime, ele roubou, sequestrou, mas seria preso. Agora, tirar a vida?”, questionou.
De acordo com o major André Luiz Pacheco Pereira, do Batalhão de Ações Especiais da PM (Baep), de Campinas, que iniciou as negociações até a chegada do Gate, os outros dois assaltantes morreram em troca de tiros ao invadir uma casa e tentar fazer um serralheiro refém. A vítima não se feriu.
O dono de uma das casas invadidas, o metalúrgico Cleberson Constantino Gomes, foi surpreendido com uma ligação informando que seu irmão chegou a ser feito refém e que dois criminosos foram mortos no local. A casa está interditada para perícia e remoção dos assaltantes por tempo indeterminado. Um deles foi morto na sala e, outro, em um quarto. “Meu irmão, que é pedreiro, e quatro serralheiros estavam trabalhando lá. Falaram que viram um carro da GM batendo na caçamba, mas eram ladrões e entraram seguidos da polícia”, disse.
Segundo ele, um serralheiro foi levado por ladrões em um caminhão e os outros não se feriram, após intervenção policial. O serralheiro foi abandonado depois em uma via, foi resgatado e está bem. “Agora não sei quando volto para casa. É levar esposa e filho para a casa da mãe e esperar”, lamentou.
Buscas são feitas em diversos pontos da cidade e, em alguns deles, armas e malotes foram recuperados. Ainda não há um balanço oficial. O major Pereira pediu que a população colabore se tiver informações, via 190.
O governador João Doria (PSDB) foi nesta quinta-feira, 17, à sede do 1.º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep), em Campinas, para cumprimentar os policiais que participaram da ação. Segundo o tucano, bandido armado que reage à ação da polícia “vai para o cemitério”. Ele ainda cobrou mais segurança nos aeroportos federais.
Em agosto, o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), comemorou a ação de um sniper, que matou um homem que fazia reféns em um ônibus na Ponte Rio-Niterói. A celebração da ação policial foi alvo de críticas de entidades.
‘Um sufoco’

O engenheiro de produção Matheus Meucci, de Sorocaba, contou que seguia para Limeira pela rodovia, quando o assalto aconteceu. “Cheguei quando a carreta tinha acabado de ser incendiada. Eu quase bati nos carros que estavam à frente”, afirmou.
Segundo Meucci, na pista sentido Indaiatuba, também já havia um caminhão queimando. “Consegui atravessar o canteiro e retornar. Foi um sufoco”, disse.
O assalto ocorreu por volta das 10 horas. Durante a ação criminosa, o aeroporto ficou fechado para pousos e decolagens. Nas redes sociais, há vídeo do momento do tiroteio e relato de passageiros que estavam no aeroporto.
Pânico

O assalto ao carro-forte da Brinks causou pânico, entre passageiros que esperavam o embarque no aeroporto de Viracopos, em Campinas.
De acordo com a concessionária, durante o tiroteio, as pessoas que estavam no saguão de check-in e se dirigiam para os aparelhos de raio-x, acabaram invadindo a sala de embarque sem passar pela inspeção. Depois que os tiros cessaram, foi necessário evacuar a sala para uma nova passagem pelo raio-x.
O corredor paulistano Marcos Galdino estava no local e contou que também foi evacuado. “Eu tinha passado antes, mas falaram que era uma tentativa de assalto e fomos evacuados. Ao sair, vi várias pessoas nervosas por causa do tiroteio. Na correria, algumas pessoas entraram na sala de embarque sem passar pelo raio-x.” A concessionária informou que a situação se normalizou em poucos minutos.
Conforme a administradora de Viracopos, devido ao assalto, que levou à suspensão de voos e decolagens durante 20 minutos, 14 voos atrasaram. Um voo da empresa Gol com destino a Brasília foi cancelado. A assessoria da companhia aérea Azul informou o cancelamento de três voos em virtude do assalto: Campinas-Passo Fundo (RS), Passo Fundo-Campinas e Campinas-Curitiba (PR). Segundo a empresa, os clientes receberam a assistência necessária e foram reacomodados em outros voos da companhia.
Posicionamento da Brinks
A assessoria da Brinks informou que os dois vigilantes atingidos no confronto com assaltantes, no aeroporto de Viracopos, são colaboradores da empresa. Eles receberam atendimento médico e passam bem.
A Brinks informou ainda que a maior parte do dinheiro levada pelos assaltantes foi recuperada pela polícia. O valor não foi informado.


