segunda-feira, 13 abril 2026
UMUARAMA/PR

Operação Bigfish mira cúpula do crime organizado e mantém presos vereadores Goioerê e Cianorte

Operação Bigfish mira cúpula do crime organizado e mantém presos vereadores Goioerê e Cianorte

Investigação de três anos desmantela organização bilionária de jogos ilegais e lavagem de dinheiro com ramificações no poder público

Uma das maiores ofensivas recentes contra o crime organizado no Brasil ganhou novos desdobramentos e colocou nomes do poder legislativo municipal no centro das investigações. A Operação Big Fish, conduzida pela Polícia Civil do Paraná em conjunto com o Ministério Público, revelou um esquema bilionário de exploração de jogos ilegais e lavagem de dinheiro, com atuação em diversos estados e forte estrutura empresarial clandestina. Entre os envolvidos, estão o vereador Marcelo Zaia, conhecido como “Gaúcho” (PSD), de Goioerê, e o presidente da Câmara Municipal de Cianorte, Victor Hugo Davanzo, ambos presos no curso da operação.

vereadores
Vitor Davanzo e Marcelo Gaucho

Deflagrada inicialmente ontem (segunda-feira, 7), a ação teve continuidade hoje (terça-feira, 8), com nova fase coordenada pela 17ª Subdivisão Policial de Apucarana e pela 21ª Subdivisão Policial de Cianorte. O objetivo é desarticular completamente uma organização criminosa considerada altamente sofisticada, que operava há mais de uma década no país.

Empresa do crime

As investigações, que se estenderam por três anos, apontaram a existência de uma verdadeira “empresa do crime”, estruturada em núcleos bem definidos, incluindo setores de liderança, financeiro, tecnológico e operacional. O grupo surgiu a partir da fusão de duas das maiores organizações dedicadas à exploração de jogos ilegais no Brasil — uma com base no Paraná e outra em Goiás, esta última ligada a integrantes associados ao contraventor Carlinhos Cachoeira.

De acordo com as autoridades, a organização mantinha milhares de pontos de exploração de jogos de azar espalhados pelo país, utilizando uma complexa engrenagem para garantir o funcionamento contínuo das atividades ilícitas. Para dar aparência legal aos lucros, o grupo criou empresas de fachada e também utilizou negócios legítimos para misturar recursos ilegais ao sistema financeiro formal.

‘Lavanderia’

Um dos pontos mais relevantes da investigação foi a identificação de um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro. Milhões de reais eram movimentados por meio de contas bancárias de “laranjas”, com operações sequenciais destinadas a dificultar o rastreamento dos valores. Ao todo, foram detectadas mais de 522 mil transações financeiras suspeitas, que somam aproximadamente R$ 2,1 bilhões.

A operação teve alcance nacional e foi realizada simultaneamente em 25 cidades de cinco estados: Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Pará e Goiás. Mais de 330 policiais civis participaram da ação, com աջակց de aeronaves e helicópteros. Ao todo, foram expedidos 371 mandados judiciais, incluindo 85 prisões preventivas e mais de 100 mandados de busca e apreensão.

Além das prisões, a Justiça determinou o bloqueio de mais de R$ 1,5 bilhão em contas bancárias. Também foram sequestrados 132 veículos de alto valor – incluindo modelos de luxo –, 111 imóveis e até rebanhos bovinos. O montante total de bens apreendidos ultrapassa R$ 43 milhões. Ainda como parte da operação, 21 sites de apostas ilegais foram retirados do ar.

Sistema de TI

Outro elemento que chamou a atenção dos investigadores foi a existência de uma empresa de tecnologia da informação mantida pelo grupo. A estrutura era responsável pelo desenvolvimento e manutenção de plataformas digitais utilizadas para a exploração de jogos ilegais, como sistemas que operavam o jogo do bicho em diversos estados. Estima-se que essas plataformas eram utilizadas em pelo menos 14 unidades da federação, com mais de 15 mil pontos de operação.

A presença de agentes públicos entre os investigados reforça, segundo as autoridades, o grau de infiltração da organização criminosa em estruturas institucionais. A prisão de dois vereadores, sendo um deles presidente de Câmara, evidencia a preocupação com possíveis conexões entre o grupo e o poder público.

Câmara de Goioerê

Em Goioerê, o presidente da Câmara Municipal, Joaquim Rafael, o ‘Joaquim da Ambulância’, informou que o Legislativo ainda não foi oficialmente notificado sobre a prisão do vereador Marcelo Gaúcho. Segundo ele, a Casa aguarda a comunicação formal para adotar as medidas legais cabíveis, com o apoio da procuradoria jurídica. Caso haja perda de mandato, o suplente Fabinho Gabeira deverá assumir a vaga.

Marcelo Gaúcho está em seu primeiro mandato em uma Câmara composta por nove parlamentares. O caso deve ter desdobramentos tanto na esfera criminal quanto política, ampliando o impacto da operação.

Câmara de Cianorte

A Câmara Municipal de Cianorte também informou, através de nota, que não recebeu notificação oficial da Justiça a respeito da prisão do presidente do Poder Legislativo e aguarda os desdobramentos do caso.

Nome da operação

Batizada de “Big Fish” (peixe grande), a operação faz referência ao objetivo central da investigação: alcançar as lideranças do esquema criminoso. Curiosamente, o ponto de partida das apurações foi o município de Grandes Rios, no interior do Paraná, com pouco mais de 5 mil habitantes — um contraste com a dimensão nacional que o esquema viria a revelar.

As investigações seguem em andamento, e novas fases da operação não estão descartadas.

 

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