A indignação de Jeffrey Chiquini com o dinheiro que circula nas campanhas eleitorais parece funcionar melhor quando a câmera está apontada para os adversários.
Candidato a deputado federal pelo Novo, Chiquini publicou um vídeo em que transforma trabalhadores de outras campanhas em cenário para um ataque carregado de indignação.
“Centrão ativou a máquina. Que NOJO dessa velha política. Centrão despejando dinheiro público no lixo!”, escreveu.
Na gravação, aponta o celular para pessoas trabalhando com bandeiras e dispara: “Olha que horror o que vira nossa cidade na campanha eleitoral”.
Depois vêm “gentarada”, “dinheiro público”, escolas, UPA, remédios e até a pergunta sobre se aquelas pessoas estariam ali “por amor”. No encerramento, o candidato decreta: “Que desgraça que vive este país… Meu Deus do céu, que coisa horrorosa”.
Um espetáculo de indignação.
Teto de vidro
Chiquini criticou, mas não mostrou o próprio caixa.
Dados da prestação eleitoral disponíveis durante a campanha mostram que Chiquini havia declarado R$ 619.704 em receitas. Desse total, R$ 520 mil foram transferidos por estruturas do Novo – aproximadamente 84% de tudo o que havia entrado.
A Direção Nacional do partido aparece como principal financiadora, com R$ 470 mil. Outros R$ 50 mil vieram da direção estadual. Pessoas físicas responderam por R$ 88.684 e o financiamento coletivo por R$ 11.020.
Curiosamente, os R$ 520 mil não ganharam um segundo sequer no vídeo sobre os horrores do dinheiro eleitoral.
E Chiquini está longe de ser um personagem isolado nesta eleição.
“O nojo político”
O candidato integra o grupo político que sustenta Sergio Moro (PL) na disputa pelo Governo do Paraná. Participou da delegação do Novo na filiação de Moro ao PL, esteve em agendas políticas ao lado do candidato e integrou a movimentação que consolidou a união entre Novo e PL no Estado.
Mais que isso: ao celebrar publicamente a aproximação, Chiquini afirmou ter trabalhado pela união entre as duas legendas.
Portanto, enquanto aponta a câmera para cabos eleitorais adversários e denuncia a “máquina”, Chiquini também participa de uma estrutura política organizada para disputar o Palácio Iguaçu, o Senado e vagas proporcionais.
Nada disso é ilegal. Eis justamente a ironia.
Receber recursos partidários, formar alianças e contratar trabalhadores são mecanismos previstos no processo eleitoral. O problema surge quando aquilo que é tratado como funcionamento normal da democracia no próprio grupo vira “nojo”, “horror” e “desgraça” quando praticado pelo lado de lá.
Também chama atenção transformar trabalhador em figurante de uma denúncia moral.
Economia
Nas eleições municipais de 2024, aproximadamente 1,2 milhão de pessoas foram contratadas diretamente pelas campanhas brasileiras. Cerca de 669 mil atuaram justamente em militância e mobilização de rua. Os contratos com pessoas físicas movimentaram aproximadamente R$ 1,96 bilhão.
É dinheiro que remunera pessoas e depois chega ao supermercado, ao posto de combustível, ao comércio e aos serviços.
Chiquini orgulha-se de dizer que estava na praça entregando pessoalmente seu “panfletinho”. Ótimo. É uma estratégia.
Mas trabalhar recebendo para segurar uma bandeira não transforma automaticamente ninguém em símbolo da decadência nacional.
No fim, o vídeo produz uma curiosa fotografia da campanha: o dinheiro que sustenta o adversário merece câmera, indignação e sermão. Os R$ 520 mil recebidos do próprio partido permanecem fora do enquadramento.
E a aliança política construída para levar Sergio Moro ao Governo do Paraná?
Essa também não apareceu na gravação.
Aliança Moro
Jeffrey Chiquini não é apenas candidato do Novo. Ele participou da construção política da aproximação entre Novo e PL, esteve na delegação da legenda na filiação de Sergio Moro ao PL e participou de agendas ao lado do candidato ao Governo do Paraná.
É importante citar ainda que Moro recebeu R$ 10,8 milhões do PL, além de doações de sócios de empresa condenada por cartel. A campanha ao Governo do Paraná já encosta no teto de gastos, além de registrar o recebimento de R$ 200 mil de empresários ligados à distribuidora condenada pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).
Chiquini chegou a afirmar publicamente que trabalhou pela união das duas siglas. Hoje, o Novo integra o grupo que apoia Moro na disputa pelo Palácio Iguaçu.
Caixa Cheio
Enquanto critica a estrutura eleitoral dos adversários, a campanha de Chiquini havia declarado R$ 619.704 em receitas. Desse total, R$ 520 mil vieram de estruturas partidárias do Novo, aproximadamente 84% da arrecadação registrada. A direção nacional respondeu por R$ 470 mil e a estadual por outros R$ 50 mil. Pessoas físicas e financiamento coletivo completam os valores declarados.


