Uma imitação, algumas piadas e um personagem criado para explorar, pelo humor, as dificuldades atribuídas a Sérgio Moro quando o assunto é conhecer profundamente o Paraná. O que deveria permanecer no território da sátira política ganhou uma consequência muito mais séria para quem estava atrás do microfone: Luiz Borer perdeu o emprego. Tal fato é apresentado por ele em um vídeo, em sua página no Instagram.
Assista:
Radialista e humorista, Borer criou um personagem inspirado em Moro e passou a ironizar justamente um dos pontos explorados pelos adversários do senador nesta campanha: seu conhecimento sobre municípios, regiões e particularidades do Estado que pretende governar.
A brincadeira mexeu onde a política costuma ser mais sensível: na imagem do candidato.
Mas entre não gostar de uma piada e um trabalhador perder sua fonte de renda existe uma distância enorme. E é exatamente essa distância que transforma o episódio em algo que ultrapassa os limites de uma simples disputa eleitoral.
Se a demissão estiver efetivamente relacionada ao personagem – e principalmente se tiver ocorrido em consequência de pressão política externa, algo que precisa ser comprovado – o caso assume uma dimensão extremamente preocupante. Humor político incomoda. Sempre incomodou. Sua função histórica é justamente exagerar, provocar, satirizar e colocar autoridades diante de um espelho nem sempre agradável.
O que não pode ser tratado com naturalidade é a possibilidade de um profissional pagar com o próprio emprego por fazer humor sobre um candidato.
Por trás do personagem existe Luiz Borer. E por trás do profissional existe uma família que depende de trabalho, salário e estabilidade para manter suas despesas. Demissão não é meme. Não é personagem. Não termina quando o microfone é desligado.
É comida na mesa, contas vencendo e incerteza sobre o amanhã.
Até que apareçam provas de eventual interferência de Moro, aliados ou integrantes de sua campanha, seria irresponsável atribuir diretamente a eles a saída do radialista. Mas também seria igualmente inadequado impedir que as circunstâncias sejam questionadas.
A política democrática precisa suportar crítica, charge, caricatura e imitação — inclusive as mais incômodas.
Porque, quando uma piada pode terminar com alguém desempregado, a discussão deixa de ser apenas sobre quem foi imitado.
Passa a ser sobre algo muito maior: até onde ainda se pode fazer humor com quem pretende exercer o poder?


