A decisão dos estados que pertencem ao bloco 5 do Pnefa (Plano Nacional de Erradicação da Febre Aftosa) de apoiar a saída antecipada do Paraná é um equívoco e afetará profundamente produtores e todos os setores que dependem da entrada de bovinos de outros estados para as suas atividades.
A opinião é consenso entre sociedades rurais, empresas e entidades que atuam no segmento da bovinocultura no Estado. Segundo as lideranças que representam o setor, essa decisão não harmonizada com os representantes da cadeia produtiva da carne bovina paranaense poderá causar demissões em massa pela falta de matéria-prima que a medida acarretará.
O Paraná conta com um rebanho de aproximadamente 10 milhões de cabeças de bovinos, sendo cerca de 50% animais de corte. Mais de 2% desses bovinos que são destinados ao abate chegam de outros estados.
Com a barreira criada no Paraná para a entrada de novos rebanhos, haverá uma defasagem, prejudicando toda a cadeia produtiva de carne, incluindo frigoríficos, curtumes, processadoras de subprodutos do abate de bovinos, incluindo couros, ossos e até mesmo a indústria de biodiesel proveniente da gordura animal.
Investimentos suspensos
O clima é de apreensão no setor. Maior exportador paranaense de carne para o mercado kosher, que segue as leis judaicas de alimentação, o Frigorífico Astra já se antecipa aos efeitos da medida. Os investimentos na ampliação da estrutura física foram suspensos. Isto pode levar à demissão de trezentos funcionários no curto prazo.
O dono da empresa, Jeremias Silva Junior, que também é diretor da Abrafrigo (Associação Brasileira de Frigoríficos), se preocupa ao pensar no plano de cortes. “Eu tenho responsabilidade com as famílias que vivem do trabalho aqui no frigorífico. Muitos estão comigo desde o início, quando isso aqui ainda era só um sonho. Mas eu ainda acredito no bom senso do governo do Estado para evitar que o pior aconteça. Eu não quero demitir. Quero contratar mais gente, mas isso só é possível quando se tem uma margem mínima de segurança para levar adiante os investimentos”, diz.
Landyr Marucci, do Curtume Panorama, também no noroeste do Estado, fala da reação negativa em cadeia. “Oitenta por cento da minha matéria-prima vêm do (frigorífico) Astra. Se diminui lá, diminui aqui também. Se tiver que buscar couro longe, vão aumentar os custos e a competitividade vai reduzir. As demissões são, sim, inevitáveis”.
Retrocesso
A presidente da Sociedade Rural de Maringá (SRM), Maria Iraclézia de Araújo, alerta para o risco de retrocesso. Uma decisão errada agora, observa, pode gerar prejuízos irreversíveis para toda a cadeia produtiva bovina.
Ela lembra que o setor da bovinocultura vem se mobilizando desde 2015 para evitar que o Paraná se antecipe no fim da vacinação e já realizou dois estudos, que foram entregues ao governo do Estado, mostrando que não é viável economicamente e nem sob o aspecto sanitário tal medida.
Manifesto
A SRM é uma das entidades que assinam manifesto endereçado ao governador Carlos Massa Ratinho Junior, contra a medida. “Os setores entendem que é benéfica a retirada da vacinação com vistas à uma valorização do produto nos mercados internacionais, mas não concordam com a saída isolada do Paraná”, acentua Iraclézia.
A defesa é pela saída em bloco, junto com outros estados. Assim, ao invés do Paraná parar este ano de vacinar, poderia sair junto com o bloco 1, que transferiu sua retirada para 2020 e isso vai coincidir com o cronograma previsto para os blocos 2 e 3 do Pnefa, cuja suspensão da imunização está programada para o próximo ano. Seria a forma do Estado não ficar isolado, conforme as lideranças.
Suinocultura
De acordo com um estudo realizado pela Athenagro, os benefícios com o fim da vacinação seriam colhidos pela suinocultura, enquanto os riscos recairiam integralmente na bovinocultura. A tese do benefício, no entanto, baseia-se na premissa de que haja retorno econômico com as exportações de carne suína, caso o Estado deixe de vacinar.
Entretanto, Santa Catarina, que atingiu o status livre de aftosa sem vacinação em 2007, não confirmou a expectativa de aumentar suas exportações para países com melhor remuneração.
Mesmo sendo o Estado de maior produção e exportações de carne suína no Brasil, apenas 6% do total exportado seguiu para mercados considerados mais restritivos em relação à vacinação, como Estados Unidos, Japão e Singapura. Em 2006, antes de atingir o status, 7% do total exportado pelo vizinho atingiu os mercados restritivos.
A carne suína paranaense também acessou mercados restritivos. Em 2018, o Paraná exportou 18,6 mil toneladas métricas de carne suína para Singapura, equivalente a 17% do total exportado pelo Estado. No mesmo período, Santa Catarina exportou 13,6 mil toneladas para o mesmo mercado, ou 4% do total. O restante exportado por Santa Catarina aos mercados restritivos soma 6,4 mil toneladas em 2018, destinadas ao Japão e Estados Unidos.
Mesmo responsável por 51,4% de todas as exportações de carne suína em 2018, Santa Catarina enviou 19,9 mil toneladas aos mercados considerados mais restritivos. O Paraná, que respondeu por apenas 16,8% das exportações brasileiras de carne suína, enviou 18,7 mil toneladas nos mercados restritivos.
“Não há dúvidas de que a retirada precipitada das campanhas de vacinação represente mais riscos do que benefícios paras carnes bovina e suína. A expectativa de benefícios não se confirmou em Santa Catarina, nem mesmo nos momentos mais complicados para a suinocultura”, frisa o estudo da Athenagro.


