A corrida pelo Governo do Paraná começa a produzir uma situação curiosa. Enquanto Sandro Alex (PSD) transforma a experiência acumulada no governo Ratinho Junior em cartão de visitas, Sergio Moro (PL) parece ter encontrado uma maneira prática de conhecer melhor o Estado: percorrer caminhos que o adversário conhece há bastante tempo.
Se é coincidência, a campanha dirá. Como aula de campo, parece funcionar.
Ex-secretário estadual de Infraestrutura e Logística, Sandro esteve diretamente envolvido na administração estadual, analisando projetos, conversando com prefeitos e acompanhando obras e investimentos. O candidato percorreu os 399 municípios paranaenses mais de uma vez, conhecendo demandas das cidades, distritos e comunidades do interior.
É uma experiência difícil de adquirir consultando o mapa durante uma campanha.
Sandro chega aos municípios podendo discutir solicitações apresentadas por prefeitos, projetos analisados e investimentos executados ou planejados. Carrega aquilo que Moro ainda precisa demonstrar: conhecimento administrativo do Paraná.
O candidato do PL tem como principal vitrine política a Operação Lava Jato, acompanhada de críticas ao governo Lula.
Pode render votos. Mas buraco em rodovia não desaparece com discurso contra Brasília, ponte não nasce de sentença judicial e prefeito não apresenta autos processuais ao governador: apresenta problemas esperando soluções.
Quando Moro deixa o debate nacional e entra nos detalhes do Paraná, as derrapadas aparecem. Uma das mais emblemáticas ocorreu quando afirmou ter visitado uma “Santa Casa de Cascavel” e conversado sobre dificuldades financeiras. O inconveniente é que o hospital citado sequer existe no município.
Para quem pretende administrar 399 cidades, criar hospital durante entrevista não parece a melhor demonstração de conhecimento territorial.
Ponte e Política
A Ponte de Guaratuba talvez seja o exemplo mais claro da diferença entre as trajetórias.
A obra tornou-se uma das principais vitrines do governo Ratinho Junior e teve Sandro Alex, então secretário de Infraestrutura, diretamente envolvido no processo.
Antes da ponte física, porém, veio uma longa travessia burocrática e judicial. Em 2023, uma ação civil pública questionou aspectos do licenciamento ambiental e uma liminar suspendeu a licença prévia. Estado e DER recorreram ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região e conseguiram autorização para continuidade. Posteriormente, um acordo envolvendo Governo do Paraná, IAT, ICMBio e Ministério Público Federal encerrou a controvérsia ambiental.
Sandro estava justamente na secretaria responsável pela infraestrutura durante essa caminhada.
A ponte acabou com a dependência exclusiva do ferry boat e tornou mais rápida e previsível a ligação entre Guaratuba e Matinhos, facilitando a vida de moradores, trabalhadores, turistas e pacientes que precisam se deslocar pelo Litoral.
Mas em Guaratuba, em uma praça, o ‘caminhão-palanque’ da comitiva foi rodeado por poucas pessoas. A maioria delas, carregadores de bandeiras, que pode ser um reflexo do que está por vir nas urnas.
Moro quer ser o tio do projeto?
Depois de pronta, Moro agora apareceu falando e desfilando sobre ela.
O candidato publicou vídeo destacando a importância da estrutura. Nada mais legítimo: ponte pública não tem proprietário político e qualquer candidato pode atravessá-la, filmá-la ou elogiá-la.
Mas existe uma ironia eleitoral difícil de esconder. Enquanto Sandro pode falar sobre os obstáculos enfrentados para fazer a ponte sair do papel, Moro chegou com o celular quando ela já estava pronta.
Talvez seja outra etapa do curso intensivo.
GPS Eleitoral
A sensação de déjà-vu também aparece no interior. Maringá entrou recentemente na rota eleitoral de Sandro e Moro igualmente colocou o município em sua agenda.
Nenhuma cidade pertence eleitoralmente a candidato algum. Mas a repetição de cenários permite uma provocação: diante da dúvida sobre qual caminho seguir, a agenda pública de Sandro parece oferecer boas sugestões.
O problema para Moro é que cada parada permite comparação. Sandro pode falar sobre reuniões com prefeitos, demandas, projetos e investimentos discutidos quando integrava o governo. Moro tenta mostrar que conhece as cidades, seus administradores e seus problemas.
Um transforma experiência administrativa em campanha. O outro tenta transformar campanha em experiência administrativa.Enquanto isso, seguir caminhos já percorridos pelo adversário pode ajudar Moro a conhecer melhor o Paraná. Aprender nunca é problema. A questão é quanto tempo dura o curso – e se o eleitor está disposto a entregar o Palácio Iguaçu antes da formatura.
Mapa Pronto
Sandro Alex usa a passagem pela Secretaria de Infraestrutura como cartão de visitas. Conhece os 399 municípios e carrega reuniões com prefeitos, projetos, rodovias, pontes e investimentos do governo Ratinho Junior. Enquanto adversários percorrem o Estado para conhecer demandas, Sandro sustenta que essa viagem começou muito antes da campanha.
Enquanto Moro tem somente a Lava Jato no currículo, ‘força a barra’ tentando ‘enfiar na cabeça’ do eleitor que pode administrar o Paraná, mas é outra disciplina. A declaração sobre uma inexistente “Santa Casa de Cascavel” mostrou seu profundo desconhecimento. Agora, ao aparecer em cenários também explorados por Sandro, fica o questionamento: coincidência de agendas ou o GPS eleitoral encontrou um roteiro conveniente?


