Para Sergio Moro, os números da Neokemp têm sido generosos. Muito generosos. Na pesquisa realizada entre 8 e 10 de setembro, o candidato do PL apareceu com 48,8% das intenções de voto para o Governo do Paraná, contra 23,3% de Requião Filho e 20,4% de Sandro Alex. Uma vantagem de mais de 25 pontos sobre o segundo colocado.
Até aí, números são números. Pesquisa é fotografia do momento e cada instituto possui metodologia própria.
Mas, quando se olha para quem assina os cheques das pesquisas da Neokemp realizadas no Paraná ao longo de 2026, o cenário ganha um ingrediente político que merece atenção.
A estreia do instituto na corrida paranaense ocorreu em março. A pesquisa PR-01340/2026 ouviu 1.008 eleitores entre os dias 18 e 20 daquele mês. Quem pagou pelo levantamento? O União Brasil do Paraná. Na época, Sergio Moro presidia o diretório estadual da legenda. Naquela rodada, ele já aparecia com ampla vantagem em diferentes cenários testados.
Em outras palavras: o partido comandado pelo próprio político pesquisado financiou um levantamento eleitoral no qual seu então presidente aparecia em posição privilegiada.
Isso não torna a pesquisa irregular nem comprova interferência no resultado. Mas certamente é uma informação que merece acompanhar os percentuais quando eles chegam ao eleitor.
Mudanças de patrocínio
Em abril, conforme o registro citado no material que deu origem a esta reportagem, a pesquisa PR-00015/2026 teve como contratante a Rede Paraná Notícias Ltda., responsável pelo Grupo aRede, de Ponta Grossa. Mais adiante, a história ganhou endereço catarinense.
Nas pesquisas recentes, quem aparece pagando os levantamentos da Neokemp sobre a eleição do Paraná é o Jornal O Correio do Povo, ligado à Rede OCP de Comunicação, de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina.
Sim: um veículo regional catarinense resolveu investir em pesquisas sucessivas para acompanhar quem governará o Paraná e quem representará os paranaenses no Senado.
A pesquisa realizada entre 8 e 10 de setembro, por exemplo, foi contratada pelo Correio do Povo, ouviu 1.008 eleitores, apresentou margem de erro de 3,1 pontos percentuais e está registrada no TSE sob o número PR-04426/2026.
E Moro não foi o único nome de PL/Novo a aparecer em posição de destaque.
Na disputa pelas duas vagas ao Senado, a mesma pesquisa colocou Deltan Dallagnol (Novo) com 47,3% e Filipe Barros (PL) com 37,7%. Alexandre Curi apareceu com 29,2%, Gleisi Hoffmann com 27,1% e Cristina Graeml com 23,3%. Como cada eleitor pode escolher dois candidatos, os percentuais podem somar até 200%.
É nesse ponto que surge outra informação relevante. O proprietário da Rede OCP é Walter Janssen Neto. Publicações do próprio grupo o identificam como presidente e proprietário da empresa. O veículo também já manteve relação editorial com Deltan Dallagnol.
Assim, a fotografia eleitoral produzida pela Neokemp apresenta uma composição particularmente conveniente para PL e Novo: Moro com larga vantagem para governador e Deltan e Filipe Barros ocupando as duas primeiras posições para o Senado.
Conveniente não significa fraudulento
Não há, nas informações verificadas para esta reportagem, prova de que a Neokemp tenha alterado números, fraudado entrevistas ou manipulado seus levantamentos. A pesquisa de setembro está registrada na Justiça Eleitoral e informa metodologia, amostra, margem de erro e contratante.
Mas também não é preciso fingir que saber quem paga uma pesquisa é informação irrelevante.
Pesquisa eleitoral não nasce espontaneamente em uma planilha. Alguém contrata, alguém paga, alguém define o interesse em realizá-la e um instituto executa o levantamento segundo a metodologia registrada.
Por isso, quando números tão favoráveis passam a ser utilizados no debate eleitoral, a pergunta mais simples talvez seja também uma das mais importantes: quem pagou pela fotografia?
No caso da Neokemp, pelo menos parte dessa resposta está registrada publicamente.
E cabe ao eleitor olhar não apenas para os números gigantes estampados nas manchetes, mas também para aquelas letrinhas geralmente bem menores no rodapé: contratante da pesquisa.
Dinheiro Político
A primeira pesquisa da Neokemp no Paraná em 2026 foi contratada pelo União Brasil-PR, então comandado por Sergio Moro. Meses depois, o Correio do Povo, de Santa Catarina, passou a contratar levantamentos sobre a eleição paranaense. A origem do financiamento não invalida os resultados, mas integra o contexto necessário para que o eleitor avalie quem produz – e quem paga – a fotografia eleitoral.
Números Generosos
Na rodada de setembro, a Neokemp apresentou Moro com 48,8%, mais de 25 pontos à frente do segundo colocado. Para o Senado, Deltan Dallagnol marcou 47,3% e Filipe Barros, 37,7%. O levantamento foi pago pelo Correio do Povo, de Santa Catarina. São números registrados e públicos; sua interpretação deve considerar metodologia, margem de erro e contexto da contratação.


