A disputa pelas duas vagas do Paraná no Senado terminou neste domingo (4) com Filipe Barros (PL) e Deltan Dallagnol (Novo) nas duas primeiras posições, segundo os números da apuração informados até o momento. Barros aparece com 27,37% dos votos, somando, com pouco mais de 95% das urnas apuradas, 3.020.249, enquanto Deltan alcança 25,27%, com 2.789.185 votos.
Se a votação já carregava peso político, a trajetória de Dallagnol transformou a eleição paranaense em uma batalha travada simultaneamente nas urnas e nos tribunais. O ex-procurador chegou ao domingo eleitoral depois de semanas em que sua própria permanência na disputa esteve ameaçada.
O problema remonta à saída de Dallagnol do Ministério Público Federal, em novembro de 2021. Em 2023, o Tribunal Superior Eleitoral entendeu que ele deixou o cargo enquanto enfrentava procedimentos administrativos que poderiam resultar em punição capaz de gerar inelegibilidade. A decisão levou à perda de seu mandato de deputado federal.
Em 2026, a discussão ressurgiu. O TRE-PR autorizou sua candidatura ao Senado por 4 votos a 3, mas a decisão foi contestada no TSE. A Procuradoria-Geral Eleitoral chegou a emitir parecer favorável à manutenção do registro.
A situação tornou-se ainda mais dramática na reta final. Em setembro, o ministro Floriano de Azevedo Marques determinou a suspensão dos atos de campanha. Por 5 votos a 2, o TSE manteve a medida. Deltan ficou impedido de participar de debates e da propaganda eleitoral no rádio e na televisão, além de sofrer restrições ao uso de recursos públicos de campanha. Era uma situação incomum: havia candidatura registrada, mas a campanha estava praticamente amarrada judicialmente.
O capítulo mais explosivo ocorreu na véspera da eleição. No sábado (3), Floriano indeferiu o registro de Dallagnol e determinou que seus votos fossem considerados nulos. Para o ministro, permanecia válido o entendimento adotado pelo TSE em 2023 sobre as circunstâncias da exoneração do Ministério Público.
Parecia o golpe definitivo.
Mas, horas depois, já no domingo da eleição, ocorreu outra reviravolta. O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, suspendeu os efeitos da decisão de Floriano. O registro voltou à condição de “deferido com recurso”, permitindo que os votos recebidos por Dallagnol fossem processados normalmente. Nunes Marques considerou que uma decisão individual não deveria produzir consequências definitivas sobre o pleito poucas horas antes da votação e preservou a análise final para o colegiado.
Foi assim que Deltan chegou às urnas: depois de ter a campanha limitada, o registro derrubado na véspera e recuperado poucas horas antes da votação.
E o eleitor respondeu nas urnas. Conforme os números da apuração considerados nesta reportagem, Filipe Barros terminou na liderança, com 2.841.782 votos (27,38%), enquanto Deltan Dallagnol alcançou 2.630.567 votos (25,35%), ocupando as duas vagas paranaenses em disputa.
Para Deltan, porém, a eleição nas urnas não encerra automaticamente a batalha jurídica. A decisão de Nunes Marques foi liminar e preservou a validade dos votos neste momento. A palavra definitiva sobre o registro da candidatura ainda caberá ao plenário do TSE.
Dessa forma, uma das campanhas mais tumultuadas das eleições de 2026 termina com um paradoxo: Dallagnol atravessou a reta final praticamente impedido de fazer campanha, viu sua candidatura ser derrubada e restaurada em questão de horas e, ainda assim, chegou ao fim da apuração entre os dois nomes escolhidos pelos paranaenses para o Senado.
Fora das vagas
A derrota atingiu nomes que chegaram à reta final alimentando expectativas reais de conquistar uma das duas cadeiras do Paraná no Senado. Alexandre Curi (Republicanos), presidente da Assembleia Legislativa, terminou em terceiro lugar, atrás de Filipe Barros e Deltan Dallagnol. O resultado teve peso especial porque Curi apareceu competitivo durante praticamente toda a campanha: na última pesquisa Radar/ADI-PR, divulgada dois dias antes da eleição, liderava o primeiro voto, com 19,5%, e aparecia entre os dois potenciais eleitos.
A apuração, porém, mudou o roteiro e deixou o deputado estadual fora do Senado. A derrota também atingiu diretamente o grupo do governador Ratinho Junior, que apoiava Curi e Cristina Graeml (PSD).
Cristina, que durante a campanha apareceu em um segundo pelotão competitivo, ficou ainda mais distante das duas vagas. Do outro lado do espectro político, Gleisi Hoffmann (PT) também não conseguiu transformar seu elevado grau de conhecimento eleitoral em vitória.
A petista chegou à reta final figurando entre os principais concorrentes e havia registrado 25,9% no levantamento Paraná Pesquisas de setembro, mas acabou superada nas urnas pela dupla formada por Barros e Dallagnol. O resultado deixou, portanto, três candidaturas de peso pelo caminho e entregou as duas cadeiras à direita.


