quarta-feira, 16 setembro 2026
UMUARAMA/PR

Flávio Bolsonaro cai em ‘sinuca de bico’ ao ter de explicar aliança com o algoz Sergio Moro

Flávio Bolsonaro cai em ‘sinuca de bico’ ao ter de explicar aliança com o algoz Sergio Moro

Repórter confronta presidenciável sobre passado explosivo de Moro com os Bolsonaro e expõe uma aliança em que a conveniência parece falar mais alto

A pergunta da jornalista do Portal Mareli Martins foi curta, mas suficiente para abrir uma ferida que a campanha aparentemente preferia manter escondida debaixo do tapete. Durante entrevista, Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, foi colocado em uma verdadeira “sinuca de bico” ao precisar explicar sua caminhada política ao lado de Sergio Moro (PL), hoje candidato ao Governo do Paraná.

E não se trata de uma contradição pequena

O Moro que hoje divide palanque com Flávio é o mesmo que, em abril de 2020, abandonou o Ministério da Justiça rompendo de maneira devastadora com Jair Bolsonaro. Na saída, o ex-juiz não economizou munição: disparou acusações contra o então presidente como uma metralhadora política, afirmando que Bolsonaro pretendia interferir na Polícia Federal e queria acesso a informações sobre investigações. Bolsonaro sempre negou qualquer interferência ilegal.

O rompimento produziu uma das maiores crises do governo Bolsonaro e levou o Supremo Tribunal Federal a autorizar investigação sobre as acusações feitas pelo próprio Moro.

Engole na marra

O contexto torna a fotografia atual ainda mais indigesta.

Naquela época, investigações também cercavam Flávio Bolsonaro e pessoas próximas a ele. A Polícia Federal no Rio de Janeiro investigava suspeitas relacionadas ao então senador, enquanto Fabrício Queiroz, seu ex-assessor, estava no centro de outro escândalo que atingia politicamente a família.Era esse o ambiente quando Moro bateu à porta do governo.

Seis anos depois, eis a transformação: o acusador virou aliado; o desafeto tornou-se companheiro de partido; e o homem que ajudou a colocar o governo Bolsonaro sob uma de suas maiores crises agora trabalha para eleger outro Bolsonaro presidente da República e na vice-versa, aproveita a brecha do PL – diga-se de passagem, a única entrada aberta para Moro se esquivar e não ficar de fora das eleições deste ano.

A política realmente opera milagres – especialmente quando existem votos no caminho.

A Pergunta incômoda

Foi exatamente essa contradição que a repórter colocou diante de Flávio.
A pergunta desmontou por alguns instantes a confortável narrativa da união da direita. Afinal, como explicar ao eleitor que Sergio Moro, apresentado durante anos por setores bolsonaristas praticamente como um traidor, agora merece confiança suficiente para caminhar ao lado do filho daquele presidente que acusou?
Mais desconfortável ainda é a posição do próprio Moro.

Amargo Silêncio

Se de um lado Flavio se esquiva e não responde o que deve estar preso à garganta, o ex-juiz já declarou que não retira aquilo que afirmou sobre Jair Bolsonaro. Ou seja: Moro não diz que estava errado em 2020. Apenas decidiu – mantendo silêncio sobre o assunto – que, politicamente, agora consegue caminhar com os mesmos Bolsonaro que ajudou a colocar contra a parede.

Tudo pelo Poder

A diferença parece estar menos no passado e muito mais nas urnas de 2026.
Moro, que é senador até 2030, precisa do eleitor bolsonarista para sua disputa pelo Governo do Paraná. pra ele, se perder, tanto faz, volta ao Senado, onde segue por mais 4 anos. É aí que entra a jogada do PL de Flávio Bolbonaro, que precisa de um palanque competitivo no Estado para sua corrida ao Planalto. As antigas acusações continuam registradas, as declarações não desapareceram e as feridas não foram apagadas. O que mudou foi a conveniência eleitoral.

E ela, aparentemente, tem excelente memória para votos e péssima memória para discursos.

Flavio Muda a Mira

Diante da saia justa, Flávio Bolsonaro encontrou uma saída politicamente conveniente: Lula e Lulinha.
Na mesma resposta em que precisava explicar a proximidade com Moro, Flávio disparou contra Lula e seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, mencionado em investigações recentes.
É uma estratégia eficiente para mobilizar a própria base, mas que não elimina a pergunta original.
Criticar Lula não explica Moro.
Atacar Lulinha não apaga 2020.
E apontar as contradições do adversário tampouco resolve as próprias.

Moro Descobriu o Bolsonarismo Novamente?

A situação de Sergio Moro talvez seja ainda mais desconfortável que a de Flávio.
Depois de romper com Bolsonaro, fazer acusações gravíssimas, construir trajetória política própria e enfrentar eleitoralmente o bolsonarismo, Moro encontrou novamente seu caminho para dentro do mesmo campo político.

Agora, filiado ao PL e candidato ao Governo do Paraná, descobriu que aquele eleitorado que antes o tratava com desconfiança pode ser justamente a estrada mais curta até o Palácio Iguaçu.

É impossível afirmar como fato que essa reaproximação exista exclusivamente por cálculo eleitoral. Mas é igualmente impossível ignorar o tamanho da conveniência.
Moro se aproxima justamente do lado político para o qual sua candidatura está eleitoralmente inclinada. Flávio aceita justamente o antigo adversário que pode fortalecer seu palanque paranaense.

Um precisa do outro. E aparentemente ambos decidiram que 2020 pode esperar.

No fim, a “sinuca de bico” criada pela repórter revelou algo maior que uma resposta desconfortável. Expôs uma fotografia incômoda da política brasileira: Moro continua sustentando aquilo que disse contra Jair Bolsonaro, mas trabalha para eleger seu filho; Flávio convive com quem colocou seu pai sob suspeita, mas prefere mirar Lula e Lulinha quando é chamado a explicar a contradição.

Não é necessário chamar isso de amizade, reconciliação ou perdão.

Por enquanto, conveniência política parece uma definição suficiente.

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