quarta-feira, 16 setembro 2026
UMUARAMA/PR

Diretor do Instituto de Criminalística mandava engavetar perícias, diz MP

Diretor do Instituto de Criminalística mandava engavetar perícias, diz MP

Em gravação, Daniel Felipetto diz que perícias iam pra fundo de depósito.Quadro Negro, operação que apura desvio de verbas de escolas, é citada

Foto: Reprodução RPC
Foto: Reprodução RPC

A gravação de uma conversa com o diretor-geral do Instituto de Criminalística do Paraná, Daniel Felipetto, mostra indícios de que ele tentou atrasar a entrega de resultados de perícias de investigações em andamento no estado. A conclusão é do Ministério Público do Paraná (MP-PR). Uma das operações que pode ter sido atingida pela intervenção de Felipetto é a Quadro Negro, que investiga desvios de verbas estaduais e federais na construção de escolas no estado.

A RPC teve acesso com exclusividade à gravação. No áudio, Felipetto afirma que mandava funcionários do Instituto colocar perícias em uma caixa e guardar no fundo de um depósito.

O áudio da conversa está com o Ministério Público do Paraná (MP-PR), que vai apurar se a demora nas perícias tinha objetivo de atrapalhar investigações. Em um dos trechos, Felipetto fala sobre perícias que estariam sob responsabilidade da direção geral. A outra pessoa que participa da conversa não é identificada.

– Daniel Felipetto: O que que nós temos? Está lá, Quadro Negro. Sabe o que é isso, hein? Quadro Negro, está com a gente lá. Tem uma outra agora que eu esqueci o nome, tem uma outra operação (?) Esqueci o nome agora, me fugiu o nome. Está lá com a gente.”

Em seguida, o perito comenta sobre o andamento dos trabalhos.

– Daniel Felipetto:Daqui a pouco, vamos acabar com as perícias, porque como eu não sou bobo nem nada, eu chamo o menino lá e falo: “Você enfia esse negócio numa caixa e põe lá no fundo do depósito”. Mas dali a pouco vem o Gaeco: “Escuta aqui, ó: estou vendo lá no site lá que não foi nem designado esse caso. O que que tá havendo?” (…) Aí você chama e me fala: “Tá, não tem jeito, faz o troço”. Aí faz. Aí vai pular o presidente da Assembleia, vai pular o presidente do Tribunal de Contas. Entendeu? Vai pular o braço direito do Beto Richa. É isso que a gente faz, é o nosso receio. (…).

Investigação do Gaeco
Nesta segunda-feira (8), o MP-PR abriu 17 dos 23 malotes, com objetos que estavam na sala que pertencia a Felipetto quando ele chefiava o Instituto de Criminalística de Londrina, no norte do Paraná. O material foi apreendido em operação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MP-PR, realizada na sexta-feira (5).

O MP-PR tinha tentado verificar o local durante uma visita, mas a porta estava trancada, e o acesso foi negado. Com a negativa, a promotoria instaurou um procedimento para apurar a situação.

Na sala, que estava trancada há três anos, foram encontradas armas, celulares e computadores. Outros seis malotes contendo documentos serão analisados nesta terça-feira (9). Os promotores querem saber se todo esse material foi periciado e se alguma investigação foi prejudicada.

Felipetto chefiou o Instituto de Criminalística de Londrina até 2013, quando assumiu a direção da entidade para o interior do Paraná. Em março de 2015, ele foi nomeado Diretor-geral do Instituto de Criminalística do Paraná.

O outro lado
Na gravação, não fica claro quem são os presidentes da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) e do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR), nem o braço direito do Governador Beto Richa, do PSDB.

O atual presidente da Alep, Ademar Traiano, do PSDB foi procurado. Ele disse que não conhece Daniel Felipetto e que não vai comentar o que ele teria dito.

A assessoria do TCE-PR foi procurada e ainda não respondeu.

O advogado de Felipetto, André Cunha, nega que ele tenha engavetado perícias, e diz que, na conversa, ele reclama da sobrecarga no trabalho. “De fato, se você for procurar a situação da criminalística do Paraná, existe um represamento imenso de trabalho, de falta de meios, e tudo o mais. Eu acho que ele tá criando uma situação de realidade, mas não que haja efetivamente dolo ou intenção de atrasar situações de investigação”.

Em nota, a direção da Polícia Científica do Paraná informou que o material apreendido pelo MP-PR não tem relação com a Operação Quadro Negro. Segundo a nota, o diretor Daniel Felipetto não fez nenhuma perícia envolvendo essa operação. Sobre a gravação, a nota diz que Felipetto não tem conhecimento da investigação do MP-PR e que está à disposição dos promotores. Sobre as perícias, o diretor afirma que os laudos envolvendo a Operação Quadro Negro estão sendo concluídos e encaminhados às autoridades. Ele diz, ainda, que o trabalho só não é mais rápido por falta de pessoal.

Repercussão da operação do Gaeco
O diretor-geral da Polícia Cientifica Hemerson Bertassoni  informou que uma sindicância da Polícia Científica vai apurar se alguma irregularidade levou à ação do Gaeco.

Depois da operação de sexta, o chefe do Instituto de Criminalística em Londrina, Luciano Bucharles, colocou o seu cargo à disposição.

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná (Sesp-PR), o pedido de Bucharles foi aceito e, nos próximos dias, deve ser indicado o novo chefe do Instituto de Criminalística de Londrina.

Segundo Bucharles, o pedido de exoneração é um procedimento padrão quando há alguma investigação. Ele não quis se manifestar sobre o desligamento, porque ainda não foi comunicado oficialmente.

Fonte: G1

 



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